Ao anoitecer um silêncio pairava no ar no velho casarão, uma inquietação me fez despertar, era tarde da noite. Acordada sai da cama, então sonolenta desci as escadas, liguei o alerta total conforme ganhava o primeiro andar, fui beber um copo de água. Na cozinha, não abri a geladeira e decidi ir direto para pia, o barulho da torneira ainda enchia os meus ouvidos e a água quase trasbordava no copo quando uma voz glacial inundou o ambiente. Olhei para trás, era um homem mal vestido.
— Pode me arrumar um copo de água, por favor!
— O quê? — Em meio aos turbilhões de sentimentos e pensamentos confusos, só uma só pergunta ficou martelando na minha cabeça: ‘’-Como um estranho entrou na minha casa!’’ Como se asas brotassem nos meus pés, voei pelas escadas e voltei para o meu quarto. No meu quarto repassei a cena, tinha um estranho na minha cozinha, tinha os fortes olores de jasmim misturado com o odor putrefato de alguém que vive nas ruas. Tinhas os olhos azuis ejetados e um sorriso com dentes perfeitos. Tinha o som do copo cheio de água gelada que deixei cair no chão. Tinha a minha necessidade de deitar na minha cama e dormir e acordar em um mundo que fazia sentido.
Ao acordar no meu quarto e na minha cama, me levantei, olhei no espelho eu lentamente desci as escadas. Os fortes odores desapareceram e na cozinha lá estava ele, o homem misterioso, sentado na mesa da cozinha. Olhei o relógio postado na parede, era madrugada e nada dele querer partir. Naquela hora tive um pensamento esquecido que talvez ele estivesse morto. Mas, a respiração dele ficou cada vez mais ofegando, parecia irado, eu fingi não estar preocupada, mas o meu corpo estava gelado. Perguntei para o estranho quando iria embora, e ele em um rompante me pegou pelo braço, jogou-me na parede, me beijou. O forte odor me invadiu de novo, e como adivinhando o que eu sentia, o estranho me largou e me disse precisar tomar um banho. Pegou na minha mão e me conduziu para fora da cozinha rumo ao desconhecido.
O estranho agia como se fosse o dono da casa, como se conhecesse a casa, ao subir as escadas, invadiu o meu quarto, acendeu a luz, foi até o guarda-roupa, pegou uma toalha e partiu rumo ao meu banheiro. Mandou-me ficar bem quieta. Tirou as roupas encardidas, notei o carpo atlético do estranho, ele entrou no box de acrílico e fechou, abriu o chuveiro. Profanação! Estou desejando um estranho, uma pessoa que conheço. Não resisti, entrei no box e subitamente me entreguei aquele estranho! Sedento, parecia devorar cada parte do meu corpo, com força colocou a mão na minha boca e mandou eu ficar quieta! Mandou-me não gritar e somente sentir.
Lá fora a vida ocorria naturalmente e começou a chover forte, e na minha realidade a madrugada parecia assustadora, nada dele ir embotar. Depois do banho ele me amarrou na cama, desceu as escadas, escutei o barulho, abriu a torneira. Voltou com um copo de água nas mãos, ele segurava com as duas mãos firmes. Molhou meu corpo e delicadamente secou com sua boca, me fez sentir os prazeres requintados, ele era um cavaleiro!
Deliciou-me de profundos prazeres libidinosos, entre muitos beijos ardentes e orgasmos, nossos corpos se encaixaram no pecado. Profanação! Não, não sei? Me sentia completa, e ali, nosso estranho amor foi consumado, selado. Ele partindo! Calou-me apenas com um beijo…
Fabiane Braga Lima/ Rio Claro, S,P.
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